Confira os bastidores da nova Expedição Fartura que desembarcou no Ceará, em parceria com o Senac

Sob o comando da curadora Carolina Daher e dos chefs João Lima e Ivan Prado, o objetivo desta viagem é mostrar em âmbito nacional os valores culturais do estado por meio da gastronomia.

Confira os bastidores da nova Expedição Fartura que desembarcou no Ceará, em parceria com o Senac

Em parceria com o Senac Ceará, e sob o comando da curadora Carolina Daher e dos chefs João Lima e Ivan Prado, tivemos mais uma Expedição Fartura neste mês de novembro. O projeto que já percorreu mais de 90,5 mil km em todo o território nacional levantando as histórias, personagens, ingredientes e receitas, adentrou o estado para mostrar lugares não tão conhecidos do grande público.

No primeiro dia, a turma subiu o Maciço de Baturité. Com 863 metros de altitude e 118 quilômetros de Fortaleza, a primeira parada foi em Mulungu, no Sítio São Roque. Com mais de 100 anos de história, a família Farias planta café desde 1918. Apesar da região ter sido uma grande produtora até a década de 70, hoje são poucos cafeicultores.


No São Roque, a produção de arábica typica gira em torno de 30 a 40 sacas por colheita. Desde que o patriarca Gerardo Queiroz Farias faleceu, em 2018, quem assumiu as rédeas do negócio foi a herdeira Mônica. “Somos sete filhos, quando saímos daqui pra estudar, nas férias tínhamos três obrigações: dar catecismo, alfabetizar as crianças da comunidade e aprender tudo sobre café. Papai dizia que era pra gente dar valor de onde vinha nosso sustento”, diz.

Depois seguiram rumo a Guaramiranga, onde Egliberto Vasconcelos cultiva cogumelos. Em suas estufas crescem os shimeji branco e salmão. Para o próximo ano, no entanto, terão outras espécies como shitake e erynguii.

No primeiro momento, a produção passará de 300 quilos semanais para 1,2 toneladas. O maior diferencial do cogumelo de Guaramiranga é o frescor com que ele chega à mesa do cearense. Vinte quatro horas depois de colhido ele já está nas prateleiras dos mercados de Fortaleza.

Carol Daher nos conta que também seguiram pela CE060 e logo depois de Quixeramobim, à direita, encontraram a  fazenda Barrocas, que existe desde 1969, localizada no sertão central do Ceará. “As árvores contorcidas e a cor de areia que cerca a propriedade, deixa claro que chuva por essas bandas é coisa rara. Mesmo com as agruras da falta d’água, Karlus Martins é pura resistência. Com 30 cabeças de gado, o moço resolveu fazer queijo no sertão. Trabalha com queijo artesanal com leite semicozido. Em prateleiras de madeira, os queijos descansam de 15 a 180 dias”, revela nossa curadora.

A produção é de 35 quilos por dia. “Resolvi fazer isso para manter a fazenda de pé”, diz ele, que faz parte da segunda geração nessas terras. Procurou consultoria de alguns produtores do Serro, em Minas Gerais. Um de seus grandes diferenciais é usar coalhada – um fermento natural que está há anos na família – durante o processo.

E claro que, nessa viagem, não poderia faltar presença na Festa da Renovação do Sagrado Coração de Jesus, no Cariri.


Uma manifestação cultural, espiritual e gastronômica muito forte em todo Cariri, na Chapada do Araripe. Criador da Fundação Casa Grande e profundo conhecedor das coisas do Ceará, Alemberg Lima conta que quando os namorados resolvem se casar, amigos, familiares e vizinhos se reúnem para ajudar na construção da casa.

O primeiro cômodo construído é a sala principal, dedicada ao Sagrado. A partir daí, todos os anos, na mesma data, acontece a Renovação. “Padre Cícero foi um grande incentivador. A Ele conseguiu unir as pessoas com uma pregação popular”. Junto com os ritos religiosos, a cerimônia atrai música, arte e, claro, comida. Cada família escolhe o que servir aos convidados. Da galinha ao mugunzá salgado. “Sequilhos é meu preferido, desde criança. Tem também baião de dois com pequi e andu; e batata doce”, diz Alemberg.

“Um jeito lindo de encerrar uma expedição que subiu e desceu serra, que se encantou com o gigantismo da chapada, que teve a chance de mostrar a cultura de um povo resiliente, que reza por chuva e não perde a esperança jamais”, completa Carol Daher sobre a viagem.

A websérie sobre as descobertas da Expedição Fartura no Ceará será lançada em breve nos canais digitais do Projeto Fartura.